Neblina

Evening Mist, Mary Beth Thielhelm
Por razões que não vêm ao caso, fiz um intervalo na blogosfera.
Estive, qual Tenzin Palmo, refugiada na minha caverna privada, a meditar sobre os motivos por que os desertos se viravam ao contrário e a impermanência me tinha brindado (em regime completo prolongado) com o dilacerar de paisagens, revelando-as meros cenários de papel.
E não foi a Prima (or shall I say "Cousin") que me despertou pelos seus affaires nos blogs dos States – up states down states – ou a Charlotte, com a sua atitude mais que justificada.
Apesar do apoio imenso da família e dos meus verdadeiros amigos, a luz apareceu-me disfarçada de anjo vestido de negro.
Ontem à tarde esperava uma profissional assumida e bem disposta, sempre de queixo erguido às dificuldades. A fisionomia era a mesma, mas o cabelo que, com as mãos trémulas puxava para cima da testa, estava descuidado. As lágrimas soltas não lhe alteravam a maquilhagem porque inexistente. As palavras desconexas, entre silêncios de esforço de concentração, oscilavam entre o pai morto, a mãe desesperada, as partilhas, o filho que – entre a revolta e a negação – se fechava no quarto e dava problemas, o único irmão que lhe morrera de enfarte havia pouco tempo, o marido que se desempregara havia seis meses e não falava com ela.
O anjo emagrecido trajava de negro.
Não me falava em divórcio mas em testamento.
Sempre reconheci que o Pessoa tinha razão em quase tudo, mas nunca pensei que ao recordá-lo me apercebesse que o manicómio em autogestão que vou abandonar apenas tem fome da sobremesa alheia e não passa de uma novela mexicana mal dobrada que nem ao de leve me provocou ideação suicida.
Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer,
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.
Que feliz deve ser quem pode pensar na infelicidade dos outros!
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles,
E não se cura de fora,
Porque sofrer não é ter falta de tinta
Ou o caixote não ter aros de ferro!
7 Comments:
..a natureza fechou-nos cá dentro e atirou fora a chave...
Já tinha saudades de te ler. Podias enviar-me um mail para some.tea.cups@gmail.com ?
Da: Às vezes também penso assim, outras penso o contrário, ou seja, que somos nós que nos fechamos à natureza. De qualquer forma, parabéns pelo teu blog de que gostei muito.
Folha:Também já tinha saudades de te ler:)
You've got e-mail :))
Todos temos os nossos intervalos...o meu foi grande.
Quero regressar tendo o prazer de voltar às casas onde me sentia(e sinto) bem.
Até já.
Manel: As pausas fazem também parte da música. Espero que o motivo das tuas esteja bem resolvido :)
Quanto ao resto, nuestra casa es tu casa, niño.
É bom voltar a ver-te.
Até já mesmo:)
Um beijo...e obrigado.
Está tudo bem.
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